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Como funciona o tratamento para ansiedade comigo e por que eu não uso protocolos prontos

Quando alguém chega ao meu consultório com ansiedade, a primeira coisa que eu preciso entender não é qual transtorno ela tem. É o que está mantendo aquela ansiedade ativa. Essa distinção pode parecer sutil, mas muda tudo no tratamento. 

Deixa eu explicar. 

O diagnóstico não é o mapa 

A área da saúde mental avançou muito em termos de classificação de transtornos. Temos o TAG, o transtorno do pânico, a ansiedade social, as fobias específicas. Esses rótulos têm valor: eles orientam, facilitam a comunicação e ajudam a nomear o sofrimento. Mas na prática clínica, eles têm um limite sério. 

Muitas mulheres chegam até mim com mais de um diagnóstico ao mesmo tempo. Ou com sintomas que não se encaixam direitinho em nenhuma caixinha. Ou que já foram tratadas por um transtorno específico e melhoraram parcialmente, mas continuam sofrendo. 

O motivo é que diferentes transtornos frequentemente compartilham os mesmos processos por baixo. A superestimação de ameaça, a evitação, a hipervigilância, a intolerância à incerteza. Esses padrões aparecem no pânico, no TAG, na ansiedade social, nas fobias. O tema muda, o mecanismo muitas vezes não. 

Por isso, quando começamos a trabalhar juntas, minha pergunta central não é “qual transtorno você tem”. É: o que está mantendo esse sofrimento ativo hoje? 

A ansiedade não é o problema em si 

Uma coisa que eu vejo com frequência é a pessoa chegar convencida de que precisa eliminar a ansiedade para conseguir viver. E essa lógica parece fazer sentido. Afinal, a ansiedade dói. Ela cansa. Ela atrapalha. 

Mas a ansiedade é, na origem, um sistema de proteção. Ela existe para preparar o organismo diante de algo percebido como ameaçador. O problema não está em sentir ansiedade. Está em como esse sistema passou a funcionar: disparando com frequência desproporcional, em situações que não representam perigo real, e mantendo o corpo e a mente em estado de alerta constante. 

Quando a ansiedade se torna clínica, ela não está “com defeito”. Ela está funcionando a partir de aprendizados que em algum momento fizeram sentido, mas que agora custam caro. E tratá-la efetivamente significa entender esses aprendizados, não simplesmente tentar apagar a emoção. 

O que realmente mantém a ansiedade ativa 

Aqui está o coração do meu trabalho. 

A ansiedade não se mantém pelo que aconteceu ou pelo que pode acontecer. Ela se mantém por uma série de padrões que, no curto prazo, aliviam o desconforto, e por isso se repetem. O problema é que esse alívio tem um preço: ele impede que o sistema nervoso aprenda que a situação temida era tolerável. 

Esses padrões têm nome. Evitação. Comportamentos de segurança. Hipervigilância. Preocupação como tentativa de controle. Intolerância à incerteza. Cada um deles faz a ansiedade continuar tocando o alarme, porque o cérebro nunca recebe a informação de que estava errado. 

Um exemplo simples: uma mulher que sente ansiedade em reuniões de trabalho começa a chegar com os argumentos super preparados, fala mais do que precisa para preencher silêncios, evita reuniões quando possível e, depois, fica horas ruminando sobre o que poderia ter dito diferente. Cada uma dessas estratégias alivia a tensão no momento. E cada uma delas garante que, na próxima reunião, a ansiedade vai chegar com a mesma força, ou maior. 

O tratamento eficaz não é sobre ensinar técnicas de respiração para aguentar a reunião. É sobre entender o que está mantendo esse ciclo e trabalhar diretamente nisso. 

Por que não uso protocolos prontos 

Protocolos existem por boas razões. Eles organizam a evidência científica, oferecem uma estrutura e facilitam a formação de terapeutas. Tenho muito respeito por esse trabalho. 

Mas uma coisa que aprendi ao longo dos anos, e que continua sendo confirmada pela pesquisa mais recente, é que o que muda a ansiedade não é a técnica em si. É o mecanismo que a técnica ativa. E o mesmo mecanismo pode precisar de caminhos completamente diferentes dependendo da pessoa. 

Duas mulheres com diagnóstico de TAG podem ter funcionamentos muito distintos. Uma pode ter a ansiedade alimentada principalmente pela intolerância à incerteza, com um padrão de busca constante por garantias. Outra pode ter a ansiedade mantida por um perfeccionismo profundo, onde qualquer margem de erro é percebida como falha total. Aplicar o mesmo protocolo nas duas seria ignorar exatamente o que está no centro de cada caso. 

Mas, e o que está na base do meu trabalho, é que toda vez que me sento com uma paciente, começo pela mesma pergunta: o que está mantendo isso ativo nessa pessoa específica, nesse momento específico? 

A partir daí, escolho as ferramentas. TCC quando o foco é nos pensamentos que sustentam o ciclo. ACT quando a relação da pessoa com a experiência interna é o maior obstáculo. Abordagens transdiagnósticas quando os processos se cruzam em múltiplos contextos. O que guia não é a abordagem favorita. É o que o caso pede. 

O que você pode esperar do nosso trabalho 

Não começo nenhum tratamento com um plano fixo. Começo com uma avaliação cuidadosa, entendendo não só os sintomas, mas o que você faz quando a ansiedade aparece, o que você evita, o que você acredita sobre o que sente, e como tudo isso se conecta à sua vida. 

A partir disso, construímos juntas uma formulação do seu caso. Não um rótulo, mas um mapa funcional: o que dispara, o que mantém, o que está custando para você viver como gostaria. Esse mapa orienta cada decisão terapêutica. 

O objetivo nunca é eliminar a ansiedade. É mudar sua relação com ela e, como consequência disso, fazer com que ela ocupe um espaço muito menor na sua vida. 

Se você reconhece padrões do que descrevi aqui, e está cansada de sentir que a ansiedade está ditando as regras, faz sentido conversarmos. Agende uma sessão e a gente começa do começo: entendendo o que está acontecendo com você, de verdade.

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Daniela Lodi, psicóloga especialista em ansiedade

Daniela Lodi

Psicóloga clínica (CRP 05/59928), graduada pelo IBMR e pós-graduada em Terapia Cognitivo-Comportamental pelo Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC). Possui formações em ACT, DBT, Psicodiagnóstico, Psicologia Baseada em Evidências, obesidade e emagrecimento, e transtornos de ansiedade. Tem como base a Terapia Cognitivo-Comportamental, utilizando recursos de ACT e DBT quando favorecem o tratamento.

@psidaniela.ansiedade